sexta-feira, 13 de julho de 2018

"Caro Michele" de Natalia Ginzburg

"Desejo-lhe todo o bem possível e espero que você seja feliz, admitindo que a felicidade exista. Eu não acredito que exista, mas os outros acreditam, e ninguém disse que os outros não têm razão." (O Pelicano In: "Caro Michele" de Natalia Ginzburg, pág. 114).
Em "Caro Michele" encontramos um romance quase epistolar, ele começa com a mulher chamada Adriana escrevendo uma longuíssima carta para seu filho Michele. O rapaz acabou de sair meio fugido da Itália deixando para trás sua mãe, seu pai moribundo, seu melhor amigo (Osvaldo), duas irmãs (Angelica, Viola e as gêmeas), enquanto ele foge essas pessoas escrevem cartas e é essa correspondência o somada a breves descrições do que acontece antes ou depois das pessoas escreve-las que se faz o livro. Todas as cartas são de uma sinceramente tocante, de uma lucidez incrível, um exercício de expor feridas sem procurar achar culpados ou acusar inocentes, todos parecem fazer terapia através da escrita, especialmente Adriana.

Essa foi minha segunda experiência com a Natalia Ginzburg e novamente estou aqui com dificuldade para comentar o livro. É difícil transformar em palavras as emoções com as quais termino as leituras que tenho feito dessa italiana. Ela criar suspenses ou tensões, sem subterfúgios ou truques para temperar a narrativa, nos apresenta a vida sem trilha sonora grandiloquente.

Essa coisa tão cheia de altos, baixos, tristezas, alegrias, ganhos, perdas, falta de sentido e, as vezes, até ternura chamada existência é o que encontramos nos textos da Natalia. Seca, placida, parece ser uma pessoa farta do barulho da propaganda fascista, seu texto de forma estudadamente fleumático parece ser um tipo de resistência aos recursos narrativos de governos totalitário. Sua narrativa nos envolve em uma nuvem de melancolia, faz pensar sobre a vida, caminha de uma forma placida e então quando menos esperamos, praticamente do nada, explode na nossa cara e a gente não sabe nem de onde veio aquela pólvora toda.
"Tenho remorsos por isso. Mas é verdade que a certa altura da nossa vida molhamos os remorsos no café da manhã, como biscoitos." (Adriana, pag. 11). 

Um comentário:

  1. eu li o outro dela e gostei bastante. fiquei curiosa por esse. beijos, pedrita

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