quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Androides sonham com ovelhas elétricas?


As vezes olho meus livros lidos e absurdada percebo o quanto livros lidos há de um ano atrás parecem ter sido lidos em outra vida e o quanto alguns livros lidos há anos parecem ter sido lidos ontem. Sempre acho impressionante a capacidade que algumas histórias possuem de impregnar a mente. "Androides sonham com ovelhas elétricas?" do Philip K. Dick é um desses livros impregnantes.

A história contada nele se passa em um futuro no qual a humanidade conseguiu tanto avançar em questões tecnológicas, a ponto de se espalhar pelo universo, quanto fragilizar o planeta Terra, a ponto de destruir a diversidade biologia do planeta. No futuro de K Dick enquanto animais são artigos de luxo raríssimos, caríssimos, objetos de ambição cuja posse demonstra ou cria status para humanos as maquinas se tornam cada vez mais avançadas a ponto de surgirem androides esteticamente idênticos aos seres humanos inclusive com capacidade cognitiva maior que a humana.

Assim como na tradição judaico-cristã Deus cria os humanos, os humanos criam androides a sua imagem e semelhança. Assim como os humanos se rebelam contra a ordem divina provando da árvore do bem o do mal, os androides de K. Dick se rebelam contra os seres humanos, desenvolvem um desejo de liberdade e procuram se jogar na aventura de viver com autonomia. Para não dar tiros no pé, não vou mais longe nas comparações ligadas ao texto da Bíblia, mas os seres humanos não deixam os androides livres, quando eles se rebelam são caçados e "aposentados".

No livro acompanhamos um dia de trabalho de Rick Deckard, um caçador de androides fugitivos. Deckard vive um daqueles dias imensooosss nos quais parece caber toda uma vida. Com ele caminhamos pelos meandros dessa sociedade na qual o sintético imita tão bem o orgânico que as vezes as coisas naturais parecem feitas de plastico e as de plastico naturais. Robôs tem vida interior, pessoas são apáticas; animais parecem robôs, robôs parecem ser de verdade; androides tem desejos reais, humanos são artificialmente estimulados a resistir ao vazio que espreita por todos os lados em um planeta quase vazio de vida orgânica real.

Acompanhamos um jogo de espelhos e reflexos no qual o verdadeiro tem tons artificiais e o artificial contornos verdadeiros, diante de nossos olhos o corriqueiro torna-se miraculoso e o miraculoso corriqueiro. É aflitivo perceber junto com o caçado de androides robôs vibrantes em seu desejo de existir e humanos apáticos vivendo com o constante apoio de estímulos sintéticos. Passo a passo as maquinas conquistam nossa empatia e os humanos a nossa repulsa.

Lembro de ter visto o filme "Blade Runner, o Caçador de Androides" na universidade e ter gostado. Nele observamos a questão da memória, pois era ela a fragilidade dos androides. Aliás, uma das coisas mais tocantes do filme é um monologo de um dos androides sobre a experiencia de vida dele que se perderá para sempre com sua morte:
"Tenho visto coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque ardendo no cinturão de Órion. Vi raios gama brilhares na escuridão, próximo ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer."
Esperava ver o mesmo tipo de questão no livro, mas o rumo reflexivo para o qual K. Dick me levou foi outro. Sem a pirotecnia da produção cinematográfica ficou muito evidente o quanto nosso mundo é semelhante ao mundo no qual Deckard dorme e acorda. A diversidade biológica é cada vez menor, a tecnologia avança enquanto nosso psicológico adoece, é mais fácil adquirir qualquer coisa artificial que orgânica. O artificial parece orgânico, o orgânico artificial. Inteligencias artificiais convivem conosco, já somos convidados a confirmar a nossa humanidade.


Ao longo de toda leitura me perguntei junto com Deckard: "O que nos torna humanos?"; "O que nos difere das maquinas?", "O que me torna capaz de dizer 'não sou um robô'?"; "O que nos torna dignos de existir enquanto outras formas de vida perecem?". Para essas perguntas existem uma pluralidade de respostas, mas desde que terminei de ler "Androides sonham com ovelhas eletricas?", me pego pensando no fato de sobre todas as coisas K. Dick ter colocado em alto relevo a capacidade humana de ter empatia.

Por mais intelectivos que sejam os androides eles não são capazes de se colocar no lugar do outro, de amar, de sentir a dor do outro, ter a necessidade de serem generosos uns com os outros, descobrirem afinidades, construírem vínculos afetivos, formarem grupos capazes de lutar em conjunto por um "bem" comum a todos. A incapacidade de empatia torna os androides detectáveis, o egoísmo brutal os torna capturáveis. Acho que estamos nos tornando androides.

10 comentários:

  1. Pandora, é mesmo estranho quando somos convidados a provar nossa humanidade... E Há livros e LIVROS..Uns nos marcam outros só serviram para passatempo.. Beijos,tudo de bom,chica

    ResponderExcluir
  2. Oi, Pandora!
    Menina, eu morro de rir o título desse livro. E acho a premissa dele interessante demais, tanto que ele já está tem um tempo na lista de leitura.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe das promoções em andamento e ganhe prêmios maravilhosos

    ResponderExcluir
  3. Dick tá na minha lista vergonhosa de autores a ler - e eu me autointotulo fã de ficção científica!
    Fiquei tremendamente tentado a ler pela forma como retratou o livro, acho incrível como esses autores clássicos de ficção científica (como também o Asimov, o Brian Aldiss e o Heinlein, por exemplo)rconseguem descrever, á distância, a sociedade em que vivemos hoje é que está perdida de diversas maneiras.
    Resenha incrível, como sempre - e a sacada da confirmação de humanidade foi sensacional.
    Dois abraços!

    ResponderExcluir
  4. Cara Pandora,
    Eu me lembro de ter lido este livro ha uns 20 anos, mas para meu infortúnio, eu estava demasiadamente apaixonado pela obra cinematográfica de Ridley Scott (pelo que aprendi a partir de então -primeiro o livro, se houver, e depois o filme). Achei a obra literária um tanto abaixo da interpretação envolvente de Rutger Hauer na telona. Esse diálogo que você transcreve é realmente o ponto alto do filme, mas chorei no scurinho do cinema mesmo foi com a cena da morte de Zhora (nossa! Cruel, triste... Uma cena linda que me deixou deprimido por semanas).

    Estou de nariz torcido para Blade Runner 2049. Estou naquela coisa de "não vi e não gostei", porque regra geral, sequencias tem o miserável dom de ferrar com uma obra linda.

    Mas vamos ver, né?
    No passado, você já me indicou muita coisa boa, para ler e para assistir.
    Se me permite retribuir, minha amiga, como grande apreciador do gênero ficção científica, recomendo a maior obra prima escrita (na miha nada humilde opinião), "Boneca do Destino, de Clifford D. SimaK".
    Eu já reli mais de 15 vezes. Se Blade Runner (o filme) é meu filme do gênero favorito, "Boneca do Destino" é O Livro.

    Sei que voce tem preferencia pela versão impressa de livros, mas "Boneca" é coisa difícil de achar, mesmo em sebos e derivativos, pelo que, caso o queira e esteja disposta a ler a versão digital, me avise que lhe remeto por email...
    Chero, Pandora...

    ResponderExcluir
  5. Eu tenho o DVD de Blade Runner, mas acredita que já quase não lembro da trama dele? A ideia central sim, mas os detalhes não. Gosto de ficção científica, mas confesso que esse não chamou muito a minha atenção não. Quem sabe um dia, né?

    =)

    Suelen Mattos
    ______________
    ROMANTIC GIRL

    ResponderExcluir
  6. Oi, Jaci!

    Esse livro parece ser bem interessante, principalmente por ser tão reflexivo e fazer o leitor se questionar várias vezes durante a leitura. Amo livros assim!

    Beijos,
    Isa
    Viciadas em Livros
    Participe do Amigo Secreto Literário do Viciadas em Livros

    ResponderExcluir
  7. Olá, Pandora.
    Eu até tentei ler esse livro, a tipo uns 20 anos, mas acredito que foi no momento errado porque não consegui ler esse nem nenhum outro do autor. Mas agora lendo sua postagem que vi que o livro tinha muito mais a oferecer do que eu consegui ver. E não é que essas questões levantadas a tanto tempo está muito atual. Ainda mais com as noticias que vemos todos os dias nos jornais. Reflexão perfeita.

    Prefácio

    ResponderExcluir
  8. Meu Deus, eu to querendo muito ler esse livro desde a primeira vez que ouvi falar dele (O que, vale acrescentar, foi há muito tempo) e você não só reanimou essa vontade, como também a aumentou.

    Amei a resenha. :)
    Saleta de Leitura
    meu canal: AnaCarolina

    ResponderExcluir
  9. Conheço o autor mas nunca li nada dele, não me parece muito o género de leitura que eu aprecio! =)

    MRS. MARGOT

    ResponderExcluir
  10. Oi Pandora! Nunca li nada do autor, mas pelo que li na resenha a obra é bem questionadora e nos faz refletir profundamente sobre a nossa existência. Achei bem interessante e adoraria ler.
    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

    ResponderExcluir