sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

"O mal-estar na cultura" & "Coisas Frágeis"

Comecei a me interessar de forma definitiva pela obra de Sigmund Freud por causa de um amigo, coincidentemente, algo parecido aconteceu com Neil Gaiman. Também foi um amigo, dessa vez  da faculdade, a me fazer ter interesse pelo autor, aliás ele até mesmo me emprestou "Stardust". O tempo passou e hoje leio tanto Freud quanto Gaiman por gosto, curiosidade e talvez até por paixão.

Ambos são autores de sinceridade incomum, sempre tenho a impressão de a titulo de desvendar a psique humana para um e contar histórias para outro, eles desvendam a si mesmo e se desnudam. Ambos possuem a coragem para expor seus ideais e isso de muitas formas me cativa como leitora e ser humano.

Nesse dia de Natal decidi escrever sobre esses dois autores, ou melhor, sobre livros desse autores porque nessa manhã acabei de ler os volumes 1 e 2 do livro "Coisas Frágeis" do Neil Gaiman e ao longo de toda leitura desse livro pensei muito em "O mal-estar na cultura", um livro de Freud cujo tema tem me inquietado nos últimos tempos.


Para mim "O mal-esta na cultura" é um livro desolador, ele funciona como o desfecho de uma trilogia que começa com "O futuro de uma ilusão" passando por "Totem e Tabu". Apelidei carinhosamente essa trilogia de "Mil e um motivos práticos e consistentes para ser infeliz". A parte isso, em "O futuro de uma ilusão" Freud apresenta o seu conceito de cultura fundamental para compreender sua obra, a saber: 
"... tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida dos bichos; e eu me recuso a separar cultura e civilização - ... Ela abrange, por um lado, todo o saber e toda a capacidade adquiridos pelo homem com o fim de dominar as forças da natureza e obter seus bens para a satisfação das necessidades humanas e por outro, todas as instituições necessárias para regulas as relações dos homens entre si e, em especial, a divisão dos bens acessíveis." (O futuro de uma ilusão, p. 36-37).
A religião nesse contexto fica entre uma tecnologia social criada pela cultura para explicar o inescapável e um tipo de neurose coletiva construída nos livrar de nossas neuroses pessoais. Não chega a ser ruim e nem ele prever um caos existencial para a humanidade.

"O futuro de uma ilusão" e "Totem e tabu" terminam no "nada está perdido", mas, quando eu pensa que não, venho em "O mal-estar da cultura" e tasca na minha cabeça a ideia de que Cultura não é tão legal assim.


Freud me fez pensar que ao criar cultura, os seres humanos inventaram um caminho de perdição si. Sublimar extintos violentos, desenvolver altas tecnologias, driblar fragilidades físicas e evolutivas, em síntese, pretender dominar a natureza criou na nossa especie um mal-estar. A pretensa grandiosidade da nossa Cultura criou e segue criando um rigoroso código de moralidade o qual ninguém consegue seguir muito bem e do qual nos tornamos reféns.
"Cada renuncia a um impulso se transforma então numa fonte dinâmica da consciência moral, cada nova renúncia aumenta sua severidade e sua intolerância, e, se pudéssemos harmonizar isso melhor com a história que conhecemos da origem da consciência moral, estaríamos tentados a nos declarar partidários da seguindo tese paradoxal: a consciência moral é o resultado da renúncia aos impulsos; ou: a renúncia aos impulsos (que nos é imposta de fora) cria a consciência moral, que então exige mais e mais renúncias." (O mal-estar da cultura, pg. 153-154)
Fiquei com a sensação de ser inútil lutar por exemplo, para poupar as novas gerações dos traumas da minha, pois eles ainda viverão em sociedade, consequentemente adquirirão seus próprios traumas, sua cota de tabus. Para completar, o desfecho do livro é uma pergunta desalentadora. Nas palavras de Freud, tradução de Renato Zwick:
"Os seres humanos conseguiram levar tão longe a dominação das forças da natureza que seria fácil, com o auxílio delas, exterminarem-se mutuamente até o último homem. Eles sabem disso; daí uma boa parte de sua inquietação atual, de sua infelicidade, de sua disposição angustiada. E agora cabe esperar que o outro dos dois "poderes celestes", o eterno Eros, faça um esforço para se impor na luta contra o seu adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o desfecho?" (pág. 184-185).
A luz dos inumerosa acontecimentos dos últimos tempos me peguei pensando em quem ou que poderá nos salvar de nós mesmos? Porque o Eros ta perdendo... Neh por nada não, mas o negocio aqui tá meio tenso.

No entanto, não está na minha lista de prioridades de vida alimentar meus monstros, ao menos não mais do que o necessário. Talvez por isso tenha me pegado nesse no meio das desolações de fim de ano finalmente lendo "Coisas Frágeis" do Neil Gaiman, uma coletânea de contos e poemas, originalmente publicados em um único volume, no Brasil viraram dois por luz e obra da Conrad.


Absolutamente todos os textos dessa coletânea ignoram solenemente aquilo que costumamos considerar solido. Acho que Marx disse algo como "tudo o que é solido se desmancha no ar" em algum momento da vida, talvez no "Manifesto do Partido Comunista", nessa coletânea Gaiman parece ter tido o intuito de mostrar que ao contrario dos sólidos os frágeis conseguem resistir as intempéries.

Não a toa, a primeira frase do livro é a seguinte: "Acho... que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada em com coisas frágeis, a uma vida gasta evitando a divida moral.". Quando li essa frase me lembrei de Freud, do meu desalento ao acabar de ler sua "trilogia" e me peguei rindo sozinha e sabendo que escreveria sobre tudo isso quando terminasse de ler.

Conto a conto Gaiman faz a magia do contado de história transportando o leitor para a beira de uma fogueira ancestral na qual se pode ouvir um velho xamã contar histórias lúdicas e sinceras, mesmo quando não baseadas necessariamente em fatos reais. Também sinto como se ele fosse um tipo de amigo de infância com o qual compartilho memórias, sonhos, alguns monstros e locais sagrados também.
"Ele havia lido livros, jornais e revistas. Sabia que, quando você foge de casa, as vezes encontra gente ruim que faz coisas ruins com você. Mas também lera contos de fadas, e sabia que havia pessoas boas no mundo, em meio aos monstros." (A vez de outubro).
Desde essa primeira frase do livro me peguei pensando sobre formas de me salvar das minhas neuroses particulares e coletivas, da aflição cotidiana, do receio em relação a próxima temporada da Terra, da falta de sentido, dos meus limites, do mal-estar de viver, do pesadelo, do medo, da fadiga contida em ter que acordar. Me peguei pensando em inúmeros talvez.


Talvez uma salvação para o caos existencial, esse mal-estar impregnante, esteja nas coisas delicadas, naquilo que não é perene.

Talvez contrair dividas morais fugindo dos objetivos altos, nobres e lúcidos nos salve.

Talvez se permitir cumprir tardiamente uma promessa, mas ao faze-lo garantir que cada milimetro produza sorrisos. O conto "O pássaro do sol", foi um presente tardio dado pelo autor a sua filha, demorou a ser feito, mas uma vez concluído é o tipo de história que nos faz ri do primeiro ao ultimo paragrafo.

Talvez resgatar da infância algo que nos incomoda e trabalhar ele de alguma forma ajude a não se afogar. Algo como o que Gaiman fez ao regasta Susan, a irmã "pecadora" das "Crônicas de Nárnia" no perturbador conto "O problema de Susan". As vezes enfrentar a infância causa resultados perturbadores mesmo, como ser livre!

Quem sabe se despir não alivie os fardos, abdicar...
"Despir minha camisa, meu livro, meu casaco, minha vidaDeixá-los, cascas vazias e folhas secasIr em busca de comida e de uma nascenteDe água fresca," (Virando Wodwo)
Quem sabe contar uma história, aliás quem sabe fazer de contar histórias um habito. Eu não tenho filhos ou filhas, mas conto histórias diariamente abro livros livros já rotos, gastos e remendados de tantos serem lidos e relidos. Histórias que as vezes eu nem mesmo leio, apenas abro e as crianças contam entre sorrisos naqueles que são alguns dos meus melhores da vida e quando elas amam uma história pedem de novo... de novo... de novo... Me enterneci, emocionei e identifiquei com o poema "Cachinhos", ele é intimo... intimo como o momento da contação de história.
"Devemos isto uns aos outros: contar histórias,simplesmente como pessoas, como pai e filha.Eu a conto para você pela centésima vez:
- Era uma vez uma..."  (Cachinhos)
Quem sabe seguir velhas instruções pregadas em nosso coração por pessoas que viveram antes de nós, mesmo quando elas parecem antiquadas também ajude a nós salvar. Talvez manter viva a memória... ser bom, ouvir nossos fantasmas... lembrar...
"Lembre-se do seu nome.Não perca a esperança - o que você procura será encontrado.Confie nos fantasmas.Confie que aqueles que você ajudou vão ajuda-lo por sua vez.Confie nos sonhos.Confie no seu coração." (Instruções)
Quem sabe a resposta esteja em se deixar gastar pelas coisas, deixar a divida moral se acumular em algum baú qualquer do subconsciente. No desfecho do conto "Inventando Aladim", o ultimo da edição da Conrad, está escrito: "nós nos salvamos de formas bastantes improváveis".

Talvez, se o Eros falhar, quem sabe, realmente, o improvável nos salve!

domingo, 13 de dezembro de 2015

Exposição Fernando Pessoa - Uma Coleção


Fernando Pessoa é um dos meus amores literários mais antigos. Desde a adolescência sua poesia faz parte de minha vida de uma forma intensa e profunda, elas são parte do que sou. Ele é daqueles autores que colaboraram de forma muito definitiva com a minha forma de observar, absorver e interpretar o mundo.


Quando eu soube da "Exposição Fernando  Pessoa - Uma coleção" em cartaz no Museu do Estado de Pernambuco simplesmente sentir uma profunda necessidade existencial de ir lá viver a experiencia unica de está entre as coisas dele.

Nunca subi escadaria com tanto animo! o/

Realmente a exposição é muito completa! Contempla a vida do Fernando, com uma linha do tempo linda com fotos da infância, dos locais onde estudou, do seu pai, mãe, irmãos e irmãs, locais onde trabalhou. Até mesmo o primeiro poema do autor, escrito para sua mãe mãe, foi incluso nela.

Família de Fernando Pessoa, mãe, irmãs e o padrasto.
Fernando pequenino, a mãe e o pai que morreu ainda na infância dele.

A linha do tempo foi didática e inclusiva, mesmo alguém que só ouviu falar de Fernando Pessoa ali compreenderia um pouco sobre o poeta e sua tragetória. Eu me senti conversando com ela, mentalmente dizia: "Poxa, isso eu não sabia!" ou "É mesmo!" e "Foi assim!". Adorei as fotos dos parentes dele, me sentir conhecendo a família de um amigo.

Indo para a exposição de fato, devorei com os olhos as revistas, livros, poemas e objetos. Me senti uma fã xereta e enlouquecida. A exposição foi muito completa, facilmente levou fãs do autor a um verdadeiro estado de estase, a mim ao menos levou. Bateu até aquela vontade de voltar na calada da noite... tsc... tsc... tsc... kkkk

Isso é um bom motivo para aprender inglês

Várias edições do livro "Mensagem", no qual se conta episódios da história portuguesa.

Mar Português é um dos poemas mais conhecidos do Fernando Pessoa!


Me emocionou muito reler "Abdicação". Foi um dos meus primeiros grandes encontros com Fernando Pessoa e é um dos poemas mais marcantes de minha adolescência, mais copiados e recopiados em meus diários e cadernos de poesia.


"Tabacaria" é o texto da minha vida. Como descrever esse reencontro com o poema nas paginas de sua primeira publicação? Não há palavras!



Adiamento também é um daqueles poemas da vida sabe... Quem conhece a mim e o meu eterno sono pode até pensar que esses versos foram escritos pensando em mim.

"Tenho sono como o frio de um cão vadio. 
Tenho muito sono. 
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir..."

(Fernando Pessoa - Alvaro de Campos)

Além das publicações do autor, a exposição também contou com objetos do poeta como sua mesa de trabalho, maquina de datilografar e óculos.




Vários livros que fizeram parte da vida dele.




Isso sim é um box de luxo!

"Sonetos Escolhidos" de Bocage foi o livro que, segundo Ophélia Queiroz, único amor da vida de Pessoa, tinha no pijama ao morrer, guardado em um envelope de papel.


Por fim, a gente ainda pode se deliciar com uma galeria de vários quadros feitos em homenagem ao poeta. Quem tinha grana podia comprar eles inclusive.


Eu não fui sozinha a exposição. Rosely e Ana, duas amigas de trabalho foram comigo, acho que muitas dessas imagens foram obra da Aninha. Esse foi um ano nos qual nós três nos descobrimos, ou melhor, descobrimos o prazer de desfrutar uma da companhia da outra fora do ambiente de trabalho. Nós exploramos a cidade, visitamos museus, exposições e cinema. Eu já tinha me habituado a andar sozinha, tinha até esquecido o quanto é bom andar com amigas. Obrigada meninas por essa redescoberta!

Eu e a Ana!

Eu e Rosi admirando o box de luxo dos Lusíadas!
Eu e Roses xeretando nos livros!
Essa exposição foi um dos pontos altos do meu ano de 2015. Uma experiencia que eu peço a Deus para jamais esquecer... Uma alegria, um balsamo, um sonhos.... Gostaria de viver várias experiencia assim... Gostaria de qualquer dia desses me vê desembarcando em Lisboa e revendo muita coisa e descobrindo novas sobre Fernando Pessoa. 

sábado, 21 de novembro de 2015

Livros Infantis para quem tem entre 2 e 3 anos!

Esse texto poderia ter o título "Os 5 livros preferidos do "Grupo Infantil II" ou "Uma homenagem aos guerreiros", pois os livros aqui citados tem sido guerreiros da Educação Infantil. Ser lido, amado e compor o cotidiano de duas dezenas de filhotes de humanos entre os 2 e 3 anos não é para qualquer um. Precisa ter resiliência e esses livros abraçam essa valorosa missão.

Olhem com carinho seus semblantes cansados, dobrados, amassados, rasgados nas bordas, colados e grudados, são as marcas do valor que cada um deles tem. Esses livros aguentam ser manuseados, babados, dobrados, mordidos, servem de assento, mega fone e o mais que a imaginação infantil dita e permanecem fortes. Sem eles, e minhas amadas estagiarias, eu não passaria.

Sem mais delongas, vamos a eles:


1. "Tem bicho que sabe..." de Toni & Laíse é um livro de dimensões grandes e cores fortes. Ele é o top 1 na preferencia das crianças. Nele os autores mostram uma sucessão de diferentes animais e uma de suas habilidades. Nele as crianças são apresentadas a abelha, lontra, flamingo, morcego, camaleão, dromedário e etc. 

As ilustrações são enormes, coloridas e expressivas. A principio as crianças estranham alguns animais, mas logo elas aprendem os novos nomes e suas respectivas habilidades de cor e salteado e ainda assim não param de pedi e pedi, aliás a essa altura elas mesmas contam essa história, eu só observo.



2. "Sim" de Jez Alborough conta a história de um dia de banho do macaquinho Zezé. Depois de brincar muito com a mamãe na água, Zezé não quer ir dormir e faz uma birra danada. A mamãe simplesmente se afasta e fica observando ele... Logo chegam um lagarto e um elefante que se juntam ao Zezé. "Sim" é um daqueles livros sem conteúdo moralizante, o macaquinho esperto não recebe broncas ou coisa do gênero da mãe. Ela simplesmente se afasta e observa ele brincando com os companheiros até que ele se cansa, dorme e é posto na cama.

Eu tenho a teoria de que as crianças adoram o Zezé porque se identificam com ele. O segundo ano de vida de um filhote de gente pode vim, geralmente vem, temperado com muitas birras, as crianças testam a paciência do adulto até o limite. Quanto a mim gosto dele porque a Mãe do Zezé me inspira, manter o equilíbrio emocional não é fácil e ela mantém.


3. "Amigo de casa" de Stephen Barker é um coringa, como todos os livros desse post. Ele é daqueles livros cujas páginas abrem. O texto não ajuda muito caso você não o saiba de cor e tenha que ler para uma turma como a minha. Fora isso, as figuras de cada animal são 4 vezes maior que o livro, gato, coelho, cachorro e peixe são 4 animais comuns ao universo infantil, as crianças curtem muito. Sempre que leio ele puxo as tradicionais musicas do cancioneiro popular infantil, as crianças acompanham.


4. "Eu gosto de mim!" da Beatriz Monteiro da Cunha não é dos preferidos das crianças. #ProntoConfessei, mas é dos meus preferidos. Nele um elefantinho muito fofo mostra como gosta de si ao cuidar de si mesmo, fazer coisas divertidas, brincar com os amigos. Um daqueles livros para ajudar a criar um sentimento de boa alto-estima e o cuidado de si.


5. "Tanto, tanto!" escrito por Trish Cooke e Helen Oxenburg é daqueles livros tão lidos, mais tão lidos que eu já sei a história praticamente de trás para frente. Mas está na lista de "meus preferidos" e "preferidos das crianças". Atualmente eu só tenho um volume em sala, então ele é muito disputado, tem quase 4 anos de uso, já sofreu diversos acidentes de percurso. Há, ele conta a história de um bebê que "não estão fazendo nada, nada mesmo" e então vão chegando vários membros da família... para quem ninguém sabe... até que chega o Papai e... 




6. "Sou a maior coisa que há no mar" de Kevin Sherry conta a história de uma Lula gigante muito cheia de si e convencida. Ela se compara a vários animais marinhos e se sente a maior e melhor... até que é devorada por uma baleia... mas nem isso abala a alto-estima dela! kkkk...

Uma característica comum a esses livros é o fato de nenhum deles ter conteúdo moralizante. Apesar de terem um teor pedagógico proposital e serem propositalmente escolhidos para compor as bibliotecas escolares por isso, os autores não contam fabulas morais. Todos eles são capazes de ampliar vocabulário infantil, apresentar diferentes situações sociais, assim como diversos seres vivos em diferentes habitats (casa, savana, fundo do mar), ensinar o cuidado de si eles não fazem isso através de lições de moral ou um jogo de "fazer algo errado, se dar mal, se redimir", eles apenas contam uma história com a qual os pequenos se identificam, aprendizado vem como consequência.

Recomendo cada um deles, porém vale lembra: cada pessoa é unica e por mais que minhas crianças amem isso não garante que todas vão amar. O legal é ir testando os gostos da criança, as coisas pelas quais ela tem interesse e oferecer a ela trabalhos que dialoguem com os prazeres delas. Para a primeira infância ler tem que ser sinônimo de brincar.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sandman


Não foi "Sandman" o responsável por me fazer amar Gaiman, quem fez essa magica foi "Stardust", um dos livro mais relidos por mim na face da Terra. Porém, conta-se ter sido "Sandman" o responsável por fazer do inglês Neil Gaiman um autor mundialmente conhecido ao longo da década de 1990.

Em poucas linhas, pode-se dizer que "Sandman" é uma série de história em quadrinho com nada menos que 75 números publicados entre 1989 e 1996, todos roteirizados por Neil Gaiman contando com vários outros gênios para dar os contornos de desenhos, cores e letras.


Uma lenda urbana no mundo dos quadrinhos afirma ter sido essa obra um tipo de divisão de águas na produção do gênero HQ. Gaiman e seus parceiros mostraram ao mundo que HQs podiam da conta de contar muito mais que histórias de heróis e vilões quando decidiram contar a história do Rei do Sonhar, também conhecido como: Sonho, Morpheus, Sandman, Oneiros, (Lorde) Moldador, Kai’Ckul, Senhor do Sonho, Homem da Areia, Governante do Sonhar, Devaneio, Príncipe Encantado de Todas as Histórias.


Tenho sempre a impressão de perceber nessa, e em outras obras de Gaiman, toques de Freud, Shakespeare, Allan Poe, Grimms, Alcorão, "As mil e uma noites", Tora, todo tipo de mitologia possível e imaginária (mesopotâmica, hindu, egípcia, grega, romana), dezenas de clássicos de diversas literaturas, etc. Parece que no mundo criado por Gaiman cabe tudo, ela absolve tudo o que toca e transforma em histórias para afastar, abraçar, esquecer ou enfrentar a escurida e incerteza a repeito do porvir.

Em Sandman ele forja sua mitologia, ou uma mitologia bem pós-moderna, através dela ele tece uma explicação alternativa para a realidade. Nessa explicação existe as figuras antropomórficas de sete irmãos filhos de pais desconhecidos, são os "Sete Irmãos Perpétuos" responsáveis por e gerir os aspectos mais centrais da vida, tais como Desejo, Death, Delírio (que já foi Deleite), Destruição, Desespero, Destino e Devaneio (Sonho).


Tal como pressupõe o titulo da obra, toda a história é contada na perspectiva de Sandman. Em nosso primeiro encontro ele está preso, então acompanhamos como ele se liberta e recupera seus domínios e objetos de poder. Posteriormente vamos descobrir cenas do passado dele, de sua família, amigos, episódios de sua vida e o desfecho impactante e inesperado da história.



No ultimo dia 15 de outubro finalmente concluir a leitura dos meus volumes de Sandman e estou escrevendo sobre isso, pois tenho a impressão que Devaneio me acompanhou por mais de uma vida e compartilhei muito dele nesse blog em forma de citações e texto.

Termino essa leitura com uma mistura de luto, satisfação pessoal e vazio temperado com uma enorme necessidade de escrever que essa foi uma boa caminhada. O "Mestre Moldador" é um personagem capaz de desperta amor, compaixão, raiva, empatia e antipatia. Um protagonista cheio de mistério apoiado por um enorme circulo de ótimos coadjuvantes e um coadjuvante misterioso que rouba a cena na hora certa e depois a devolve a seu dono por direito.

Foi um prazer ler Sandman, conhecer essa face do mundo de Gaiman, vibrei, chorei, sorrir e me identifiquei. Não a toa a Death, irmã mais velha de Aneiros, substitui minha foto em todos os meus perfis e denúncia meu amor pela obra.

Obrigada Gaiman, obrigada Sandman, ainda nos veremos outras vezes em outros livros, em releitura desse e talvez em sonhos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TAG: Os miseráveis

Ao longo de 2015, eu e o Alexandre decidimo ler juntos "Os miseráveis" do francês Victor Hugo. No agarramos a edição da Cosac Naify, ele pegou a edição física, eu me agarrei a digital e seguimos por essa aventura com direito a banner e tudo.

Ao longo do caminho algumas pessoas se juntaram a nós, mas diferenças de filosofias bloguisticas, ritmo de leitura e até mesmo empatia acabaram nos separando.

Outra coisa que aconteceu no meio do caminho foi a elaboração de uma tag baseada em alguns dos personagens do tomo 1 do livro. A ideia é que a gente procure na nossa estante afetiva sete livros que lembrem sete personagens do "Tomo I: Fantine".

Como ando mal das pernas bloguisticas, demorei uma vida para reunir força espiritual para responder essa tag, mas cá estarão as minhas respostas.


1. Bienvenu, Bispo de Digne: Um livro que te abraçou quando você mais precisava.



Há algum tempo eu fiz um post para o "Blog da Elaine Gaspareto" sobre esses livros com propriedades acolhedoras. Aqui, no entanto, só se pode citar 1, então citarei "O livro das coisas perdidas". O John Connolly tem uma escrita sutil, firme, realista mesmo quando trata de fantasia e da a sua história um desfecho absolutamente redondo e firme, do tipo que te abraça e empurra para frente.

2. Jen Valjean: Um livro que precisou de uma segunda chance.


Aqui não vou citar um livro, vou citar uma autora: Cecelia Ahern. Minha primeira experiencia com ela foi morosa, lenta e frustrante, esperava uma coisa e recebi outra, não tive empatia com a protagonista. Totalmente oposta a experiencia com "A lista", não esperava nada desse livro e ele me deu tão mais do que eu esperava que já solicitei ao Alexandre o próximo livro dela.


3. Madelaine: Um livro que parece uma coisa, mas é outra.


"O começo do adeus" é tudo o que a capa não diz dele. Quem protagoniza a história é um homem, o Aaron, que perdeu a esposa em um acidente tão repentino quanto esquisito e precisa lidar com o enorme vazio deixado por ela... Precisa encontrar formas de dar adeus a uma pessoa central na vida dele. Como tudo da Anne Tyler esse livro tem uma pegada forte na psicanalise, não é nada açucarado, fala de pessoas comuns como eu e você e é muito fácil se identificar com os personagens... Em nota, a esposa do Aaron era uma médica negra NADA HAVER com a mulher da capa.

4. Fantine: Um livro cujo o fim de te fez chorar.


"Marina" do Zafón, foi um dos melhores livros do ano até aqui. Depois de Neil Gaiman Zafon foi o autor que mais divinamente vi flertar com os clássicos da literatura ocidental. Ele consegue construir uma Barcelona capaz de encher Alan Poe de orgulho, executa a arte de tornar o absurdo plausível como Kafka e se apropria da ciência para fazer o horror acontecer como Mary Shelley. Aliás, ele homenageia esses autores em seu livro... E quando eu estava totalmente embebida nessa vibe, ele simplesmente me matou de tanto chorar! Livro perfeito, redondo... lindo!

5. Tholomyès: Um livro que foi abandonado.


Eu tentei, juro que tentei, mas não consegui avançar em "História das Assembleias de Deus no Brasil". Letra pequena, linguagem apologética, aquele português difícil... Um dia quem sabe... 

6. Cosette: Um livro infantil pelo qual você tem muito carinho.


Sou apaixonada por "Alice no país das maravilhas", o livro parece uma história de terror, mas a aventura da menina no mundo além da toca do coelho continua me encantando dia após dia, ano após ano da mesma forma que encantava quando há vinte (Deus passaram-se duas décadas) anos atrás.

7. Javet: Um livro cuja leitura foi sofrível.


Não que "Eu estava aqui.... e você?" seja um livro ruiiiiiiiiiiiiiim.... É que eu não me identifiquei mesmo com a protagonista. O Neir Ilelis foi professor de português e como tal conseguiu reproduzir muito bem, embora essa talvez não fosse sua intensão, o lado b da rotina de uma escola... Acho que isso bastou para que eu antipatizasse com sua protagonista e toda sua aventura tornando a leitura sofrível.

Quem quiser responder a tag, sinta-se convidado. Se e quando fizer, deixa o link aqui para que eu possa vê!